terça-feira, 16 de setembro de 2008

UM ELFO DE TOLKIEN

Nem sempre é fácil contar as nossa experiências amorosas, principalmente aquelas cujo final não é bem o que se deseja para o mocinho e a mocinha da trama. Permita que eu me apresente, meu nome é Liv e tenho dezenove anos e a história que vou contar é sobre o meu amor impossível com Routan o cara mais lindo que já conheci.
Um dia, depois do cursinho pré-vestibular eu e mais duas amigas fomos a uma loja de CD’s para saber o que tinha de novidade, lá acabei conhecendo o amor da minha vida: Routan Cup. Descendente de irlandeses, tem vinte anos e a aparência de Apolo com os Elfos loiros de Tolkien. Alto, magro, loiro, cabelo liso e longo caído por cima de um dos olhos, procurava obstinadamente por um CD que parecia não querer aparecer. Eu, como sempre, babei só de encontrar os olhos azuis dele me observando e como se nos conhecêssemos há anos sorriu, mostrando os belos e enfileirados dentes brancos, e acenou com meiguice.
Na minha mente as informações se embaralhavam. Como aquele elfo de Tolkien poderia ter me notado? Como se eu, um tipo normal-básico a lá brasileira, baixinha, cabelos castanhos, olhos da mesma cor, bochechuda sem nada de atraente poderia ter atraído à atenção daquele Apolo?
Fechei os olhos, para ter certeza de que aquilo era um sonho, e os abri lentamente, entretanto ao invés de sumir, ele estava mais próximo. Sim ele vinha em minha direção. Meu coração palpitava rapidamente e minhas mãos suavam e quando ele veio falar comigo, ainda lembro de cada palavra dita naquele dia:
- Olá! Meu nome é Routan e sou novo aqui, você poderia me ajudar a encontrar o CD do Within Temptation? - pediu-me lentamente.
- Ah, claro! - falei exaltada. – Vem, os CD’s ficam aqui. Qual o que você procura?
- Enter.
- Obrigado... ah ...você me disse seu nome? Ando meio esquecido.
- Não! A culpa é minha, eu não me apresentei. Meu nome é Lívia, mas todo mundo me chama de Liv.
- Prazer.
- Liv. Já escolheu?
- Já vou garotas! Bem aquelas são as minhas amigas, a loira é a Keila e a mulata é Juliana.
- Bem, eu vou pagar. Foi um prazer te conhecer Liv.
- Nada o prazer foi meu! - e realmente foi!
Quando saiu da loja, minhas amigas vieram perguntar o que conversamos. Keila parecia enciumada com o fato dele ter falado comigo, e não com ela que era a mais bonita das três, mas não me importei, pra mim o dia estava ganho! Tudo de ruim que aconteceu antes foi esquecido no momento que vi aquele belo sorriso.
Sou niteroiense da gema, residente do Centro com minha mãe e meu irmão, num apê de dois quartos, sala, área de serviço, cozinha, banheiro e varanda, onde passo a maior parte do meu tempo, seja estudando, seja olhando a vida passar e dois dias depois desse encontro com Routan, estava eu nesse oficio ocioso, quando o vi não muito longe do portão do prédio. Rapidamente vesti o tênis e desci, calculando que não deveria demorar para que ele passasse em frente ao prédio.
Dito e feito, quando pus o pé fora do portão, ele me viu e veio falar comigo.
- Olá Liv!
- Ah, oi Routan! O que faz por aqui? Jurava que não iria te ver mais depois daquele dia!
- Eu moro neste prédio. Viu? De qualquer forma, iríamos nos encontrar uma hora ou outra! Aonde você vai?
- Na pracinha do Rink. Gosto de ficar lá para relaxar ou fugir do meu irmão.
- Se importa se eu for com você? Sabe, quero fugir do meu primo. Estamos dividindo o apartamento e como ele chegou hoje está tentando me fazer arrumar as coisas dele.
Fomos, para a praça. Lá, ele me contou que seus pais não aceitavam sua escolha profissional e que estava fazendo letras da UFF. Eu, por vez contei que tinha acabado o Ensino Médio no ano anterior e que estava estudando para tentar Matemática. Ficamos conversando durante muito tempo conversando e nos tornando grandes amigos.
*********
Não consigo determinar quantas vezes saímos ou quanto tempo levou para que eu me apaixonasse por ele, a única coisa que sei é que eu queria pertencer a ele de corpo e alma.
Decidi-me por convidá-lo para o cinema e lá me declarar.
No cinema, estávamos Routan, Juliana, Keila, Ricardo que era o namorado da Jú e seu irmão de vinte e cinco anos, Renato e eu. O filme escolhido era um romance e tudo estava favorável para que eu contasse o que sentia por ele.
- Vamos galera. O filme já está para começar. - chamou Renato. Na sala sentamos numa fileira do meio da seguinte forma: Renato, Keila, Routan, eu e a lugar de mim, Juliana e Ricardo. Apagam-se as luzes e evito olhar para onde está Jú, pois devido à experiência anteriores, sei que o clima ali esquenta, ultrapassando os 120º Celsius, e passo a me concentrar em meu objetivo, no meu elfo de Tolkien. Porém ao olhar pra ele, vi que Keila já o entretinha.
Agradeci por estarmos no cinema, pois assim pude chorar de raiva e ciúme sem que ninguém notasse. Renato havia pulado para a fileira de baixo, pois reconheceu uma garota, Ricardo e Jú nem é preciso comentar e Routan havia deixado Keila deitar no seu ombro e como sempre acontecia, eu havia sobrado.
Pensava, amargurada, como pude ter a ilusão de que ele poderia se interessar por mim. Eu o normal-básico a lá brasileira poderia competir com uma descendente de italianos, de olhos verdes e cabelos arruivados e ondulados?
Depois do filme, Routan perguntou-me o que aconteceu comigo, pois estava vermelha e com olhos inchados. Respondi tentando parecer normal, que me emocionei com o filme e que era uma boba que chorava a toa!
- Não! Você é magnífica! Se emocionar é mostrar que você é sensível e doce, e que tem uma alma caridosa. Totalmente diferente dessa sua amiga Keila.
- Como assim? - perguntei baixando a voz e diminuindo o passo para que Keila não ouvisse o comentário.
- Ela tenta ser agradável, porém acaba sendo desagradável demais. Teve uma hora que ela deitou no meu ombro e começou a reclamar, e sinceramente foi irritante!
Quando falou isso, eu comecei a rir, porém ele ficou sério logo que viu um casal se beijando, o rapaz eu já conhecia, era o primo dele, o João Bátu. Notando que eu observava o que fizera calar, Routan pediu licença e disse que ia ao banheiro e passou pelo casal com tanta energia que fez o casal olhá-lo.
Eu fui até a mesa onde o pessoal já começara os pedidos e Keila de cara amarrada, pelo menos não fui a única que teve um programa que deu errado.
*********
O resto da tarde daquele dia foi ótima, Keila acabou ficando com Renato, e Routan não me deixou mais sozinha, não sei se foi por causa do primo dele que toda vez que se aproximava, dele me levava para o lado contrário ou se foi por medo da Keila ir amolá-lo novamente, entretanto, como já disse ela ficou com o irmão do namorado da Juliana e esqueceu dele, para sorte dele e minha.
Nossa amizade crescia a cada dia e cada dia eu o achava mais perfeito! Já nos conhecíamos há três meses e estava cada dia mais apaixonada por ele e ele sem me tratar diferente ou destratar, o mesmo desde o dia que nos conhecemos.
Fazia uma semana desde o cinema e eu já estava freqüentando a casa dele e num dia comentei que não via mais o primo dele na sua casa. Ele comentou, apenas por educação e num tom seco que eles estavam brigados e que João voltara para casa dos pais dele e que não queria falar no assunto. Respeitei e não fiz perguntas, mas meu coração me deu dois alertas: o primeiro foi um alerta doloroso, dizendo-me que o motivo da briga havia sido aquela garota que João estava ficando no “cinema”, ou melhor, na praça de alimentação do Plaza; o segundo foi um alerta esperançoso , pois sem o primo dele ali, eu poderia me declarar a sós com ele e se ele quisesse avançar, eu poderia aceitá-lo sem culpa , pois eu estava o amando, pois o que eu sinto é verdadeiro.
Uma tarde, depois do pré, resolvi me declarar e não o levaria a lugar nenhum seria no apê dele mesmo e pensando no que poderia acontecer, passei na farmácia e comprei camisinhas. Estava nervosa, pois tinha apenas um medo dele apenas me querer por uma noite e nada mais. Não queria ficar com um cara só por causa de sexo, não novamente, já me entreguei a um cara que só queria transar e depois me chutou para ficar com a Keila.
Dói lembrar, mas isso não importava mais. Não tem importância, mas, ainda assusta.
Já no apê dele, começamos uma conversa amigável e fui preparando terreno para falar que eu o amo, até que chegou o dia do cinema. Começamos falando sobre o filme, “O código da Vinci”, depois de Keila até que chegamos no ponto que eu queria, o primo e a garota, ou melhor, a mulata de cachos definidos e com um corpo de parar o trânsito.
Perguntei se ele gostava da bendita mulata. Sua resposta foi uma gargalhada gostosa e doce juntamente da seguinte frase:
- Pensei que você já tivesse notado que não ligo para porcarias como aquela! Bátu que gosta de pegar a primeira coisa que vê, independente... do sexo. - essas duas ultimas foram ditas com um notável sofrimento que preferi ignorar, pois meu coração estava muito acelerado, me dizendo para não perder o momento e me declarar rápido, enquanto existia coragem.
Então fiz. Comecei gaguejando, porém na hora H saiu nitidamente todas as palavras. Lembro-me detalhadamente da cena: eu suando frio e torcendo minhas mãos para tentar disfarçar o leve tremor e ele sempre lindo, ouvindo tudo atentamente e sem assombro.
- Sabe Routan, eu... eu tenho, não! Eu tento te dizer algo , porém sempre algo acontece e perco a coragem.
- Então, estamos sozinhos por quê não diz? - brincou.
- Routan, eu... - deixei de falar e o beijei.
Não sei de onde veio à coragem, nem o medo que senti quando o beijei, só sabia que não podia perder o momento.
Quando afastei os meus lábios dos dele, ele parecia desnorteado. Não consegui dizer nada, só olhar para ele na esperança de que ele dissesse algo para que eu me tranqüilizasse e mesmo que fosse ele o primeiro a falar, e realmente foi, porém suas palavras me destruíram por completo.
- Por que você fez isso? - murmurou com a voz trêmula. – Por quê?
- Eu... me desculpa. Mas... eu te amo... e... sinto muito. – Já não conseguia segurar o choro, então me levantei e saí correndo.
O elevador não estava no andar e no desespero dos meus sentidos e sentimentos, desci seis andares num estado deplorável.
Já no meu quarto é que fui notar que eu havia fugido de mim mesma, do medo do não iminente e que estava totalmente destruída por dentro e por fora, notei isto ao me olhar no espelho.
Durante os dois dias que seguiram desde esta tentativa fracassada de me declarar a Routan, não saí do quarto quando tinha alguém em casa, não fui ao curso, não atendi ao telefone, em resumo me isolei totalmente do mundo, porém passados estes dois dias notei que não podia morrer para o muno por causa de um cara e no terceiro levantei cedo e fui à praça do Rink.
Não lembro quando nem o porque direito comecei a chorar, só sei que senti um toque suave que me secava os olhos, quando abri os olhos, pude ver o meu elfo de Tolkien na minha frente, lindo como sempre, a me consolar e sussurrar-me que tudo foi um mal-entendido, entretanto isso foi apenas um pequeno sonho que tive enquanto estava na praça.
No momento, porém, que havia decidido ir embora, Routan chegou e sentou-se do meu lado pedindo que eu o escutasse. Não consegui dizer não e ir embora então fiquei e ouvi:
- Sinto muito se te magoei naquele dia, mas você me deixou sem ação. Eu tenho que contar algo a você e espero que me entenda – começou ele calmamente - Liv, eu não sou bem o que pareço e o Bátu não é o meu primo, na verdade nós éramos... namorados.
Ai fui eu que fiquei sem ação. Como podia? Aquele deus grego, aquele Apolo, aquele elfo de Tolkien, aquele ser perfeito ser gay? Meu coração batia acelerado, a ponto de ouvi-lo. Não acreditava.
- Sei que não parece, mas isso é por causa do que aconteceu no prédio que morávamos antes, lá era um lugar bom de Icaraí, porém onde a maioria dos moradores eram evangélicos.
“Procuramos manter as aparências então evitávamos ser vistos juntos em lugares próximos do prédio ou quando nos viam agíamos como primos ou meros amigos. Entretanto, numa tarde nos encontramos no elevador, eu vinha da faculdade e ele da casa dos pais dele e como estávamos há muito tempo sem nos vermos, e o elevador estava vazio, ficamos ali mesmo”.
“Mais tinha algo que havíamos nos esquecido. Na semana anterior haviam sido instalados câmeras de segurança e bem acho que nem preciso dizer o que aconteceu, né?”.
- Quem viu?
- Uma pastora. Ela viu e foi reclamar com o síndico. Foi horrível, durante duas semanas recebíamos insultos, ouvíamos piadas, enfim sofríamos todo tipo de discriminação. Não agüentando mais nos mudamos para cá.
“Quando te conheci, vi que poderíamos ser amigos pelo seu olhar. - disse enquanto levantava o meu rosto, de forma que aqueles dois diamantes azuis furassem o castanho dos meus olhos e chegasse a minha alma”.
- Esse olhar inocente e sofrido, porém não imaginava que você... iria sentir algo mais por mim. Me desculpa por tudo que eu lhe causei, eu peço perdão.
- Você não precisa pedir perdão. Pelo contrário, eu agi por impulso e esse foi o meu maior erro. Se eu tive dito que estou gostando de você não teríamos que estar passando por tudo isso. - Falei com o máximo de honestidade que o momento me permitia.
- Bem, se eu não tivesse certeza da minha escolha, gostaria de encontrar uma pessoa alguém como você sabe? Alguém doce, sincera e que busca sempre seus objetivos, mesmo que isso te machuque, pelo menos você tentou. Quanto a mim... sempre fui um covarde, sempre fugi ou busquei a saída mais fácil.
- Como assim covarde? Você saiu de casa para viver com a pessoa que ama! Pra mim, isso não é covardia é sim coragem! Pensa, se você é covarde fez isso, imagina se fosse corajoso?! Acho que teria mandado todos so seu antigo prédio p’ro buraco onde o sol não bate... - parei assustada quando ele tocou meu rosto gentilmente.
- É essa coragem que eu gostaria de ter! Essa coragem sincera, que te faz brilhar, essa coragem de brigar pelo que acredita. Agradeço a Deus o dia que te conheci.
Quando ele disse todo aquele medo sumiu, tudo estava perfeito, mesmo que ele fosse gay, mesmo que ele não me amasse, eu estava nas nuvens só pelo fato dele me admirar!
Não agüentava mais segurar as lágrimas por mais que estivesse feliz, comecei a chorar novamente, sendo que dessa vez, ele me abraçou e chorou comigo.
Desde deste dia Routan e eu nos tornamos grandes amigos, mais confidentes e em alguns momentos de carência, até “ficamos” mas sempre cientes dos sentimentos reais de um pelo outro. Pelo menos até o dia em que ele conheceu um cara, o Pablo, e começou a namorar.
Sei que é idiotice minha, mas estou sofrendo muito com isso , pois eu estava começando a achar que... (que besteira) ele estivesse se apaixonando por mim, mas eu tive esperanças, e isso foi o que mais me machucou. Sou muito tola, mas gosto de amá-lo, mesmo sabendo que seja impossível tê-lo, eu o amo e assim quero ficar até o ultimo dia da minha vida, pois para mim, ele continuará sendo o mesmo Apolo, o mesmo deus grego e eternamente o meu elfo de Tolkien.

FIM!

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